"O
padre Lenilson Morais, vigário paroquial da Paróquia de Santana e São Joaquim,
de São José de Mipibu, vai seguir no próximo dia 01 de fevereiro, para o
Mosteiro da Ressurreição, na cidade de Ponta Grossa (PR), onde viverá uma
experiência de vida monástica, durante dois anos. Nesta edição do jornal A
Ordem, trazemos uma entrevista com o sacerdote, que explica o motivo da opção
pela experiência e também o que espera desta nova vivência.
A Ordem: O
que o levou a optar pela experiência da vida monástica?
Pe. Lenilson: O
desejo da vida monástica não é algo novo. Sou de Passagem, uma cidade muito
pacata do nosso estado, e nasci literalmente em contato com a natureza numa
casa de fazenda por mãos de uma parteira. Já na minha entrada no Seminário de
São Pedro, em 1994, comecei a ter curiosidade pela vida religiosa,
especialmente pelas famílias contemplativas. Creio até que, se houvesse
conhecido congregações anteriormente, tivesse feito o ingresso em uma delas,
mas, sendo “tudo providência de Deus”, vim, graças ao testemunho e pregações do
Pe. Xavier, para o amado Seminário Arquidiocesano, ao qual sou profundamente
grato pela formação recebida. Quando Dom Heitor era nosso Arcebispo tive uma
conversa com ele sobre este desejo. Com sua sabedoria, ele me aconselhou a
terminar a teologia. Fui, então, enviado com outros colegas ao Colégio
Internacional Maria Mater Ecclesiae, em Roma, onde pude completar o percurso da
formação acadêmica. Voltei em 2005 para a Arquidiocese onde recebi a dom da
Ordenação Presbiteral das mãos de Dom Matias. Assumi várias funções no
seminário e em paróquias, mas sempre continuava a sentir o anseio da vida
contemplativa. Tendo sido acompanhado pela Irmã Elisete, fiz um discernimento
mais “pé no chão”, menos idealista, chegando no início deste ano, depois de
visitar vários mosteiros, a tomar coragem para conversar com nosso dileto
Arcebispo Dom Jaime, que, prontamente, entendeu, aceitou e abençoou este
propósito.
A Ordem: Qual
será o mosteiro no qual o senhor vai ingressar, e a partir de quando?
Pe. Lenilson: Como
disse, visitei vários mosteiros do Nordeste e do Sul do País. Cada mosteiro tem
suas peculiaridades. Não há dois mosteiros iguais, ainda que sejam da mesma
família. Queria um mosteiro que unisse oração, trabalho manual, estudo e vida
comunitária; estas dimensões fincadas na tradição monástica, mas abertas ao
novo do Concílio Vaticano II. Confesso que encontrei tudo isto, com grande
equilíbrio, no Mosteiro da Ressurreição, que fica na cidade de Ponta
Grossa/Paraná. O site da Abadia (http://abadiadaressurreicao.org) mostra um
pouco desta harmonia. Serei acolhido lá no dia 01 de fevereiro próximo.
A Ordem: O
que se pode resumir do conceito de ter essa opção de vida?
Pe. Lenilson: Um
monge americano, bem conhecido nos anos 70 e 80, Thomás Merton, escrevera numa
de suas principais obras, intitulada em português “A vida silenciosa”, que
explicar a vida monástica é, em essência, uma contradição porque o monge não
precisar justificar sua opção, se esta é autenticamente uma escolha para “ser
discípulo na escola do Senhor”. Diria, então, que os conceitos aqui não se
encaixam. O que sei é que sinto há muitos anos o desejo de “viver só a Deus
buscando”. E isto não é porque seja mais santo, não o sou mesmo! Na verdade, o
principal “voto” do monge é a “conversatio morum”, a conversão dos costumes.
A Ordem: O
que o senhor deseja ter como principal experiência?
Pe. Lenilson: Esta
questão é muito boa, pois trata-se de uma “experiência”. Continuo sendo padre e
o serei até a morte, pela graça de Deus. Toda experiência boa só nos enriquece!
Tenho a permissão de nosso Arcebispo Dom Jaime para ficar um ano no Mosteiro,
onde serei acompanhado pelos “anciãos” da Abadia. Depois de um ano, no máximo
dois, poderei optar por fazer o caminho beneditino, ingressando no noviciado ou
retornar à Arquidiocese. O principal de tudo isto é que poderei superar uma
dúvida que me acompanha a anos. Se Deus me confirmar neste caminho, certamente
permanecerei lá muito feliz, e, se Deus me chamar ao retorno nas “linhas de
frente”, regressarei muito agradecido e em paz, pois sempre me senti amado por
minha família, pela Igreja e pelas comunidades por onde passei.
A Ordem:
Muitos jovens desejam também abraçar essa vocação. Qual o conselho que o senhor
lhes daria nesse momento?
Pe. Lenilson: De
fato, conheço muitos jovens que desejam ingressar na vida monástica, mas,
infelizmente, temos ainda muita carência de mosteiros no nosso Nordeste. Ir a
outras terras nem sempre é fácil por motivos econômicos, por laços familiares
ou mesmo por preconceito, pois as pessoas, verdadeiramente, não entendem o que
é a vida dentro de um mosteiro sério; muitos pensam que um mosteiro é como uma
prisão dos tempos medievais, onde cada monge vive trancado numa sela da
masmorra. Quando ouço as pessoas me questionarem “o que você vai fazer trancado
num mosteiro, podendo ficar aqui fora ajudando as pessoas?”, não repondo, tenho
vontade de rir, mas me lembro de uma expressão do Papa Francisco: “A igreja é
como um hospital de campo”. Numa guerra há aqueles que vão ao “front” para
lutar – estes são os missionários; numa guerra há também os que não aparecem
muito, os enfermeiros, os auxiliares que cuidam dos feridos, que os confortam,
que escrevem as cartas, há também os mensageiros – estes são os contemplativos.
Dia e noite intercedem ao coração de Deus pela humanidade, mas também estão à
disposição das pessoas que vão a estes “hospitais da fé” para “serem ouvidas” –
algo, por vezes, negligenciado nas paróquias, devido ao ativismo – quer no
sacramento da confissão, quer no aconselhamento espiritual. No final,
percebemos que o sucesso da batalha só é possível com a cooperação de todos. Se
um jovem sente este desejo, não há como explicar e também não há segredos. Crie
coragem, ponha sua mochila nas costas, guarde o smartphone e vá passar uns dias
no mosteiro. A experiência é a melhor explicação!"
Entrevista retirada do jornal A Ordem.