A relação entre a autoridade e o
poder sempre foi transversal na história do pensamento político. Nunca
conseguimos falar sobre uma sem, positiva ou negativamente, fazermos referência
ao outro. Ela sempre esteve no centro da experiência comunitária no decorrer
das Eras. Talvez, porque seja a composição que mais diga dos seres humanos o
que eles são como animal político, como já o afirmara o velho Aristóteles. Cabe
afirmar que a consecução da sinfonia entre ambos é uma arte e, por isso, a
reflexão sobre a identidade política seja permanente e contínua. Infelizmente,
quem mais deseja possuir esta força, na maioria das vezes não a usa com
dignidade.
Talvez, para alguns, pareça estranho,
mas a base que postarei para esta breve e atual reflexão é um texto do
evangelista João que narra no seu evangelho (19,11) a fala de Jesus, quando Ele
afirma que Pilatos “não teria nenhuma autoridade sobre Ele se esta não lhe
fosse dada por Deus”. Vejamos que aqui autoridade se confunde com poder. O
representante do César tinha como condenar ou absolver Jesus. Numa discussão
puramente política e temporal podemos nos deixar envolver pela armadilha de que
quem tem o poder tem a autoridade. Esta tendência não é evangélica, nem muito
menos cristã. Numa teologia política da ação de Deus na história humana, quem
tem o poder deve ter autoridade e vice versa. Mas na política dos homens, nem
todo aquele que tem poder tem autoridade. Jesus no seu confronto com os
herodianos nos diz em síntese que existe uma diferença no comportamento de quem
tem o poder e quem tem a autoridade, quando diz que “devemos dar a Cesar o que
é de Cesar e a Deus o que é de Deus”. Ainda, diz que o Seu reino não deste
mundo (Jo 18,36). Santo Agostinho interpretou magistralmente esta diferença quando
escreveu a Cidade de Deus. A autoridade substancia o poder. Ela é a alma do
poder. Este sem a primeira se sustenta pela força que violenta, denigre e mata.
A autoridade gera, mobiliza e garante a vida. Na modernidade houve a perda
desta conexão. O paradigma metodológico não é mais a conversão, mas a
revolução. A história não é mais dinâmica por causa da mudança interior; e sim
pela violência exterior. A concepção de que o homem é lobo do outro homem, dinamiza
as relações de controle. O outro não é mais meu irmão. Ele é objeto
instrumental para que um outro seja fortalecido.
Os nossos contextos políticos são
fortemente marcados por esta velha política. O fim desta é o poder; não o bem
do outro. Esta concepção a torna algo sem moral. Nela, os fins justificam os
meios. Quem tem o poder corrompe e é corrompido, mata, persegue, ofende a
dignidade dos semelhantes, é perverso. Ele tem poder, mas não tem autoridade. O
pior: O povo está insensível a estas práticas e está sendo conivente com este
tipo de delinquentes, pois os confirma nos momentos de julgamento. Ainda diz: “Ele
rouba, mas faz”. Isto não pode ser autenticado pelo povo. A integração entre a
autoritas e potestas é uma urgência que pode nos dizer quando existe, deveras,
uma autêntica e sadia democracia.
Por fim, podemos dizer que Autoridade
é aquele que usa o poder para servir, com ética e consciência dos deveres junto
ao Povo. Esta promove a vida e a dignidade daqueles que são seus semelhantes.
Quando é Cristão tem que meditar as atitudes de Jesus no Lava Pés (Jo 13,14-17),
que é Modelo para todos nós. Que estejamos inquietos e atentos para que
possamos perceber quem está usando o poder, com autoridade, para praticar o bem
e a justiça. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco de São José de Mipibu e Vigário
Episcopal da Arquidiocese de Natal


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