Há uma leitura sociológica sobre a situação relacional do humano
na posmodernidade, que é preocupante: A globalização da indiferença. Existe uma
leitura antropológica e outra teológica, com as quais desenvolverei o argumento
sobre a necessária relação entre a compaixão e a misericórdia. Pois partimos do
princípio de que quem é misericordioso sempre tem compaixão; mas, nem sempre
quem tem compaixão é misericordioso. Deus é misericordioso e, por isso, sente
compaixão. Ele sente as misérias da humanidade e entra na sua história para
resgatá-la de todas elas, inclusive da morte, que é a radicalidade do
sofrimento humano. O homem sente compaixão; porém, nem sempre tem misericórdia.
A filósofa judia, Hannah Arendt, em sintonia com as motivações
da Revolução Francesa, afirma que “a compaixão é inquestionavelmente um afeto
material natural que toca, de forma involuntária, qualquer pessoa normal à
vista do sofrimento, por mais estranho que possa ser o sofredor, e portanto
poderia ser considerada como base ideal para um sentimento que ao atingir toda
a humanidade, estabeleceria uma sociedade onde os homens realmente poderiam se
tornar irmãos”. Era o ideal da Revolução que exilou as suas raízes cristãs. O
divórcio gerou a perplexidade na leitura que se fez necessária nos “tempos
sombrios” da modernidade, principalmente, com os questionamentos que foram
feitos à condição humana do pós-guerra. O Papa emérito, Bento XVI, quando
visitou o campo de concentração nazista de Auschwitz, questionou o seguinte:
“Onde estava Deus quando tudo aquilo aconteceu?” O Papa Francisco denunciou, na
sua visita à Lampedusa, a “globalização da indiferença”. O sociólogo polaco,
Zygmunt Bauman, descreve esta estrutura da indiferença de modo claro, ao dizer
que vivemos em tempos líquidos. Neste contexto, o lugar para a compaixão é
mínimo. Ela existe, mas não é suficiente.
Já com João Paulo II, mas agora de um modo mais intenso e
contundente com o Papa Francisco, o tema da misericórdia é retomado como
atributo essencial da realidade de Deus. Ele é um Pai misericordioso. Eis a
verdade sobre Deus que o mundo precisa conhecer e experienciar. No final deste
ano haverá a abertura do ano da misericórdia. Eis a marca teológica do
pontificado de Francisco que ele está fazendo questão de demarcar. Este será
lançado na próxima solenidade da Imaculada Conceição e se concluirá no dia 20
de novembro de 2016, domingo de Cristo Rei. O julgamento de Deus é a sua
misericórdia. Ele nos julga, nos amando. O que faz com que esta resposta
teológica esteja escondida é a crise de fé do homem contemporâneo. O olhar
proativo do Papa Francisco é que ninguém pode se sentir ou ser excluído da
misericórdia de Deus. Falar da misericórdia é falar do amor de Deus que penetra
o coração humano e o converte. Ele é aquele que pode resgatar a pessoa
completamente. Essa misericórdia, que é para todos, deve ter meios de
manifestação. Sendo assim, podemos e devemos pensar a misericórdia e a
compaixão como sentimentos que se completam para plenificar e reintegrar a
pessoa humana.
Enfim, pode existir compaixão sem a misericórdia; mas, nunca
misericórdia sem compaixão. A autêntica misericórdia nos leva a compaixão. Por
isso que, o que a Igreja está para celebrar é importante para sua vida interna
e, também, a vida da humanidade. As pessoas não vivem a compaixão porque não
estão abertas à misericórdia. Esta relação precisa ser aprofundada. A
misericórdia é de Quem ama e que está sempre de braços abertos a perdoar e a acolher.
Ela é humanizadora porque promove a dignidade de todos. Leiamos, meditemos e
apliquemos o capítulo 15 do evangelho de São Lucas, com a sua simetria, e
perceberemos que a compaixão é conseqüência da justiça misericordiosa de Deus.
Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco de São José de Mipibu e Vigário Episcopal da Arquidiocese de Natal

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