“Quero misericórdia e não o sacrifício” (Mt 12, 7)
Amados todos em nosso Senhor Jesus Cristo,
Estamos muito felizes por participar deste “grande retiro espiritual” que é o novenário de nossos excelsos padroeiros Sant’Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e, naturalmente, avós de Nosso Salvador Jesus Cristo. Só esta consideração já nos coloca diante de uma grande verdade histórica e de fé, a saber: Jesus se encarna e vive num contesto de família. A família é a primeira opção preferencial de Jesus. Nos nossos dias a família humana e cristã passa por crises, dilemas e chagas que afetam todo o tecido social, inclusive a Igreja, mas também é bombardeada ou negligenciada nas instancias políticas, educativas, midiáticas e culturais. A própria Paróquia vem buscando viver uma renovação bem profunda para melhor responder às urgentes questões em torno desta célula primordial da sociedade. É neste contesto que a nossa festa abraça o tema da “Paróquia: lugar do discipulado e da missão; do encontro, da justiça e da paz”. Nesta noite cabe a mim realizar uma espécie de “prefácio” a este amplo tema que esperamos ser bem desenvolvido pelos próximos pregadores.
O que é uma Paróquia? Será que a paróquia é somente esta bela matriz? Ou sua estrutura física e administrativa? Certamente nós já aprendemos muito nos últimos anos – principalmente a partir da Conferencia de Aparecida – que a Paróquia é uma realidade viva e dinâmica. Parafraseando Jesus no Evangelho de hoje diríamos: “a Paróquia é maior do que o templo”; e em outra passagem: “a Paróquia foi feita para o homem, e não o homem para a Paróquia”. Esta é segundo o Direito canônico e o Catecismo da Igreja católica: “uma determinada comunidade de fiéis, constituída de maneira estável na Igreja Particular (Diocese) e seu cuidado pastoral é confiado ao Pároco, como seu pastor próprio, sob a autoridade do bispo diocesano” (CIC 2179). Os nossos bispos no documento 100 da CNBB – bem conhecido pelos agentes pastorais – dizem com clareza e simplicidade: A paróquia é a comunidade das comunidades, sendo o lugar privilegiado da “união íntima e comunhão das pessoas entre si e delas com Deus Trindade” (n. 168). Portanto, a paróquia é lugar de encontro, não é lugar de divisão . Todas as comunidades deste Município pertencem a mesma e única Paróquia; todos os grupos, pastorais, movimentos, associações religiosas e serviços que trazem o nome ou a inspiração “católica” pertencem e são a Paróquia de Sant’Ana e S. Joaquim, e necessitam assumir seu Plano missionário pastoral. Na verdade, quando assumimos o discipulado e a missão é que somos a “Paróquia: comunidade das comunidades.” Só é paróquia quem é discípulo e missionário de Jesus .
A Paróquia, isto é o povo – que é de Deus – neste Município necessita ter um rosto. Enquanto Igreja, que rosto queremos ter? Um rosto de máscara? Ou o rosto de Jesus: justo e misericordioso? Muitos passos já foram dados para a nossa libertação de uma máscara de religiosidade, mas precisamos continuar avançando. No quesito justiça, Jesus combateu toda espécie de hipocrisia, corrupção, conluios, soberba, exploração; e justamente por isto ele foi o primeiro, na Nova Aliança, a “ter fome e sede de justiça”, o primeiro a ser “perseguido por causa da justiça”, como sugere o lema de nossa Festa: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,6.10).
Seguindo o exemplo de Jesus, o Magistério Eclesiástico nos diz no Catecismo da Igreja Católica (retomando o Vaticano II, GS,76) que: faz parte de missão da Igreja “emitir juízo moral sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas” (CIC 2246). Falando de modo mais claro ainda o Papa Francisco, na Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho”, disse: “Os Pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano. Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas ‘para nosso usufruto’ (1 Tm 6, 17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum” (n.182). Portanto, Jesus quer salvar o homem todo e todos os homens.
“Quero misericórdia e não o sacrifício” (Mt 12, 7). Em Jesus Cristo, a própria justiça é sinal de sua misericórdia, pois tem em vista a conversão de todos nós pecadores e ainda mais dos corruptos acostumados em seus pecados. É simples assim: se alguém se arrepende sinceramente, Deus o justifica, Deus o perdoa pelo sangue de Jesus derramado na cruz. Foi o que o Papa Francisco recordou na Missa de Corpus Christi deste ano: “Jesus derramou o seu Sangue como preço e lavacro, para que nós fôssemos purificados de todos os nossos pecados: para não nos aviltarmos, fixemos o nosso olhar nele, saciemo-nos na sua fonte, a fim de sermos preservados do risco da corrupção. E então experimentaremos a graça de uma transformação: seremos sempre pobres pecadores, mas o Sangue de Cristo libertar-nos-á dos nossos pecados, restituir-nos-á a nossa dignidade. Livrar-nos-á da corrupção”. Poderíamos rezar assim: Jesus, nesta Festa, quero me encontrar com a tua misericórdia.
De fato, meus amados irmãos e irmãs, a Festa dos Padroeiros é um tempo especial para suplicarmos a graça da conversão, a graça de sermos mais cristãos, a graça de refletirmos as atitudes de Jesus. São João Paulo II gostava de dizer em tempos de guerra ou de tensão entre povos e nações: “Não há justiça sem perdão”. A justiça sem perdão é vingança, mas também a misericórdia sem justiça é conivência. Peçamos a Deus a graça de um sábio equilíbrio, e se for para desequilibrar a balança que seja sempre em favor do bem do outro, sempre para ver algo de bom nos outros, pois lembremo-nos duas advertências da Palavra de Deus: “Com a mesma medida com que medirdes os outros, vós sereis medidos” (Mt 7,2) e, “o julgamento vai ser sem misericórdia para que não usou de misericórdia, a misericórdia, porém, triunfa sobre o juízo” (Tg 2,12). Seria muito bom lemos toda a carta de São Tiago, durante este período da Festa para entendermos o equilíbrio ente justiça e misericórdia, entre fé e obras. É isto que gera a paz numa sociedade. A paz não vem pelas armas nem pelos linchamentos de seres humanos amarrados a postes. A paz é fruto da justiça pessoal e social, e a justiça só é completa se é acompanhada da misericórdia, isto é, do reconhecimento da dignidade de toda pessoa humana.
Para concluir, lembro-me de uma frase dita por D. Heitor em uma de suas visitas ao Seminário Menor: “Não se espantem ao verem notícias de coisas horríveis feitas pelos homens. Sem a graça de Deus poderíamos cometer os maiores crimes”.
Retomemos, então, a questão inicial: o que é uma Paróquia? Qual o rosto que queremos para a nossa Paróquia? O que estamos fazendo para renovar nossa Paróquia? Como queremos ser tratados e como tratamos os outros na Paróquia? Como vivo a comunhão na Paróquia? Como pratico a justiça e a misericórdia? Olhemos para a cruz e o Crucificado-Ressuscitado nos falará. Olhemos para Jesus e deixemos que ele nos olhe. Amemos a Jesus, pois só ele nos dará a graça do amor ao próximo sem fingimento. Assim seja!
Pe. José Lenilson de Morais
Vigário Paroquial
São José de Mipibu, 17 de julho de 2015
Amados todos em nosso Senhor Jesus Cristo,
Estamos muito felizes por participar deste “grande retiro espiritual” que é o novenário de nossos excelsos padroeiros Sant’Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e, naturalmente, avós de Nosso Salvador Jesus Cristo. Só esta consideração já nos coloca diante de uma grande verdade histórica e de fé, a saber: Jesus se encarna e vive num contesto de família. A família é a primeira opção preferencial de Jesus. Nos nossos dias a família humana e cristã passa por crises, dilemas e chagas que afetam todo o tecido social, inclusive a Igreja, mas também é bombardeada ou negligenciada nas instancias políticas, educativas, midiáticas e culturais. A própria Paróquia vem buscando viver uma renovação bem profunda para melhor responder às urgentes questões em torno desta célula primordial da sociedade. É neste contesto que a nossa festa abraça o tema da “Paróquia: lugar do discipulado e da missão; do encontro, da justiça e da paz”. Nesta noite cabe a mim realizar uma espécie de “prefácio” a este amplo tema que esperamos ser bem desenvolvido pelos próximos pregadores.
O que é uma Paróquia? Será que a paróquia é somente esta bela matriz? Ou sua estrutura física e administrativa? Certamente nós já aprendemos muito nos últimos anos – principalmente a partir da Conferencia de Aparecida – que a Paróquia é uma realidade viva e dinâmica. Parafraseando Jesus no Evangelho de hoje diríamos: “a Paróquia é maior do que o templo”; e em outra passagem: “a Paróquia foi feita para o homem, e não o homem para a Paróquia”. Esta é segundo o Direito canônico e o Catecismo da Igreja católica: “uma determinada comunidade de fiéis, constituída de maneira estável na Igreja Particular (Diocese) e seu cuidado pastoral é confiado ao Pároco, como seu pastor próprio, sob a autoridade do bispo diocesano” (CIC 2179). Os nossos bispos no documento 100 da CNBB – bem conhecido pelos agentes pastorais – dizem com clareza e simplicidade: A paróquia é a comunidade das comunidades, sendo o lugar privilegiado da “união íntima e comunhão das pessoas entre si e delas com Deus Trindade” (n. 168). Portanto, a paróquia é lugar de encontro, não é lugar de divisão . Todas as comunidades deste Município pertencem a mesma e única Paróquia; todos os grupos, pastorais, movimentos, associações religiosas e serviços que trazem o nome ou a inspiração “católica” pertencem e são a Paróquia de Sant’Ana e S. Joaquim, e necessitam assumir seu Plano missionário pastoral. Na verdade, quando assumimos o discipulado e a missão é que somos a “Paróquia: comunidade das comunidades.” Só é paróquia quem é discípulo e missionário de Jesus .
A Paróquia, isto é o povo – que é de Deus – neste Município necessita ter um rosto. Enquanto Igreja, que rosto queremos ter? Um rosto de máscara? Ou o rosto de Jesus: justo e misericordioso? Muitos passos já foram dados para a nossa libertação de uma máscara de religiosidade, mas precisamos continuar avançando. No quesito justiça, Jesus combateu toda espécie de hipocrisia, corrupção, conluios, soberba, exploração; e justamente por isto ele foi o primeiro, na Nova Aliança, a “ter fome e sede de justiça”, o primeiro a ser “perseguido por causa da justiça”, como sugere o lema de nossa Festa: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,6.10).
Seguindo o exemplo de Jesus, o Magistério Eclesiástico nos diz no Catecismo da Igreja Católica (retomando o Vaticano II, GS,76) que: faz parte de missão da Igreja “emitir juízo moral sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas” (CIC 2246). Falando de modo mais claro ainda o Papa Francisco, na Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho”, disse: “Os Pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano. Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas ‘para nosso usufruto’ (1 Tm 6, 17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum” (n.182). Portanto, Jesus quer salvar o homem todo e todos os homens.
“Quero misericórdia e não o sacrifício” (Mt 12, 7). Em Jesus Cristo, a própria justiça é sinal de sua misericórdia, pois tem em vista a conversão de todos nós pecadores e ainda mais dos corruptos acostumados em seus pecados. É simples assim: se alguém se arrepende sinceramente, Deus o justifica, Deus o perdoa pelo sangue de Jesus derramado na cruz. Foi o que o Papa Francisco recordou na Missa de Corpus Christi deste ano: “Jesus derramou o seu Sangue como preço e lavacro, para que nós fôssemos purificados de todos os nossos pecados: para não nos aviltarmos, fixemos o nosso olhar nele, saciemo-nos na sua fonte, a fim de sermos preservados do risco da corrupção. E então experimentaremos a graça de uma transformação: seremos sempre pobres pecadores, mas o Sangue de Cristo libertar-nos-á dos nossos pecados, restituir-nos-á a nossa dignidade. Livrar-nos-á da corrupção”. Poderíamos rezar assim: Jesus, nesta Festa, quero me encontrar com a tua misericórdia.
De fato, meus amados irmãos e irmãs, a Festa dos Padroeiros é um tempo especial para suplicarmos a graça da conversão, a graça de sermos mais cristãos, a graça de refletirmos as atitudes de Jesus. São João Paulo II gostava de dizer em tempos de guerra ou de tensão entre povos e nações: “Não há justiça sem perdão”. A justiça sem perdão é vingança, mas também a misericórdia sem justiça é conivência. Peçamos a Deus a graça de um sábio equilíbrio, e se for para desequilibrar a balança que seja sempre em favor do bem do outro, sempre para ver algo de bom nos outros, pois lembremo-nos duas advertências da Palavra de Deus: “Com a mesma medida com que medirdes os outros, vós sereis medidos” (Mt 7,2) e, “o julgamento vai ser sem misericórdia para que não usou de misericórdia, a misericórdia, porém, triunfa sobre o juízo” (Tg 2,12). Seria muito bom lemos toda a carta de São Tiago, durante este período da Festa para entendermos o equilíbrio ente justiça e misericórdia, entre fé e obras. É isto que gera a paz numa sociedade. A paz não vem pelas armas nem pelos linchamentos de seres humanos amarrados a postes. A paz é fruto da justiça pessoal e social, e a justiça só é completa se é acompanhada da misericórdia, isto é, do reconhecimento da dignidade de toda pessoa humana.
Para concluir, lembro-me de uma frase dita por D. Heitor em uma de suas visitas ao Seminário Menor: “Não se espantem ao verem notícias de coisas horríveis feitas pelos homens. Sem a graça de Deus poderíamos cometer os maiores crimes”.
Retomemos, então, a questão inicial: o que é uma Paróquia? Qual o rosto que queremos para a nossa Paróquia? O que estamos fazendo para renovar nossa Paróquia? Como queremos ser tratados e como tratamos os outros na Paróquia? Como vivo a comunhão na Paróquia? Como pratico a justiça e a misericórdia? Olhemos para a cruz e o Crucificado-Ressuscitado nos falará. Olhemos para Jesus e deixemos que ele nos olhe. Amemos a Jesus, pois só ele nos dará a graça do amor ao próximo sem fingimento. Assim seja!
Pe. José Lenilson de Morais
Vigário Paroquial
São José de Mipibu, 17 de julho de 2015
Nenhum comentário:
Postar um comentário