Temos
assistido com preocupação as notícias de destruição de imagens dos santos
católicos em nome da “fé” e da “arte” por vários Estados do Brasil. Passados 20
séculos de nossa cultura religiosa cristã-católica ainda encontramos muita
ignorância e confusão em relação ao culto a Deus, a seus santos e o uso dos
símbolos religiosos na Igreja Católica. Recordemos que, desde o início, não só
a Igreja Católica venera ícones e imagens. Todas as igrejas, com origem nos
primeiros séculos da era cristã, tem grande apreço por estes sinais sagrados.
Pensemos, por exemplo, nas Igrejas ortodoxas e nas Igrejas coptas. Essas
comunidades cristãs professam o mesmo credo dos católicos, celebram os Sete
Sacramentos e veneram as imagens ou ícones do Cristo, da Virgem Maria e dos
Santos.
A
confusão aparece quando se leem algumas passagens da Sagrada Escritura,
especialmente do Antigo Testamento, que condenam a idolatria dos pagãos, que
adoravam as imagens de astros, animais e homens como seus deuses (confira
alguns textos: Êxodo 20, 4; Deuteronômio 5, 8-10; Salmo 135, 15-18). Por que a
proibição das imagens naquele contexto? Os hebreus estavam saindo da escravidão
no Egito, começavam a se organizar como “Povo da Aliança” e precisavam formar
bem sua identidade cultural a partir a fé de Abraão. Os povos da terra de Canaã
(atual Palestina) já tinham sua cultura e seus deuses próprios, personificados
nos ídolos. A proibição da fabricação das imagens aparece com o escopo claro de
evitar a “contaminação” de Israel com os outros povos, que eram politeístas.
Contudo, um olhar mais atento e menos fundamentalista da Bíblia, leva-nos a
perceber que essa proibição encontra nos mesmos livros sagrados a sua
relativização, isto é, a sua relação em dois sentidos: proibi quando é imagem
de um falso deus, permite quando se trata de arte, embelezamento e simbologia.
Confira você mesmo no Texto Sagrado: Êxodo 25, 18-22, onde Deus – que havia
proibido a imagem de qualquer ser da terra ou do céu – manda fabricar dois
querubins de ouro para embelezar a Arca da Aliança. O sinal visível dos
querubins era tão importante que o próprio Deus é quem diz: “do meio dos
querubins que estão sobre a arca do Testamento, falarei contigo” (Êxodo 25,
22). Em outra passagem Deus manda Moisés fazer uma serpente de bronze como
sinal, e todo aquele que era picado por serpente e obedecesse a Deus ficaria
curado (Números 21, 7-9). Esse fato foi tão importante para a fé do Povo de
Deus que o próprio Jesus, praticamente na única vez que faz menção ao tema das
imagens, disse: "Como Moisés levantou a
serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que toda
pessoa que nele crer tenha a vida eterna” (Evangelho de João 3, 14-15).
Para a fé da Igreja Católica e de todas as Igreja cristãs
primitivas (ortodoxa, copta, siríaca, entre outras) há três tipos de culto: um
culto exclusivo a Deus, culto de adoração: “latria”; o culto de veneração aos
santos, chamado de “dulia” e o culto de veneração a Virgem Maria, denominado
“hiperdulia”. Quando os cristãos tem atos de respeito e devoção para com os
santos e suas imagens, eles de modo algum ferem os mandamentos de Deus; os
cristãos da Igreja católica e de suas Igrejas irmãs sabem – em sua maioria – a
clara diferença da adoração “de toda a alma, com todo coração e com todas as
forças”, que damos só a Deus, daquela veneração de respeito, de louvor e
gratidão devida a Virgem Maria e aos santos. Ninguém é obrigado a gostar de
nossas imagens e de nosso modo de rezar, mas todos somos obrigados pela força
do Evangelho e da Constituição Brasileira a respeitar o credo alheio. A onda de
violação das imagens sagradas e de outros símbolos de nossa fé demostra não um
maior conhecimento da Palavra de Deus, mas sim um fundamentalismo doentio e
desprovido de argumentos. Na verdade, quem fere, persegue ou violenta em nome
de Jesus já criou um ídolo dentro de si, pois tem no coração qualquer outra
coisa, menos Jesus Cristo, o qual sintetizou “toda Lei e os Profetas” no amor a
Deus..., que só é verdadeiro se for acompanhado do amor ao próximo (Evangelho
de Mateus 22, 34-40).


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