O Papa Francisco, no dia 05 de agosto/2015, numa das suas
catequeses sobre a Família, falando da situação dos casais de segunda união,
reafirmou que estes não estão excomungados da Igreja. Esta não é a primeira vez
que um Papa faz esta afirmação. O Papa São João Paulo II, já no número 84 da
Familiaris Consorcio, que é a Exortação Pos-Sinodal que trata sobre a função da
família cristã no mundo de hoje, já afirmara o que o pontífice argentino
continua a ensinar, como Bispo de Roma. Eis o texto: “Juntamente com o Sínodo,
assevera o pontífice polaco, exorto vivamente os pastores e a inteira
comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita
que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo,
enquanto batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra
de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a
incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da
justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de
penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a
Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na
esperança”. Quem já leu ou ouviu a catequese de Francisco, verá que, o que ele
ensina sobre as atitudes de acolhimento eclesial em relação aos casais são as
mesmas. Não existe ruptura, nem descontinuidade; mas sim continuidade pastoral
e maternal.
A questão de destaque do número
citado e que será, sem dúvida, objeto de debates no próximo Sínodo, tem a ver
com as seguintes situações, que já são mencionadas, a saber: 1) Os casais que
se esforçaram para salvar o primeiro matrimônio e foram injustamente
abandonados; 2) Os que por sua culpa destruíram um matrimônio canonicamente
válido e 3) Os que contraíram uma segunda união em vista da educação dos
filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o
precedente matrimônio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido. Diante
disto, atentemos que o Papa Francisco em nenhum momento menciona que será
liberada a comunhão eucarística aos casais de segunda união. No desenvolvimento
da catequese, o que é enfatizado é que os pastores usem de discernimento e que
toda a Igreja seja acolhedora. Mais uma vez, há a retomada do ensinamento da
Exortação Apostólica de São João Paulo II. Ele intensifica a preocupação com a
terceira questão, que é o cuidado para preservar os filhos dos sofrimentos que
são causados pela separação dos pais. Não entra na problemática que, sem
dúvida, será debatida calorosamente no Sínodo, e que a Exortação reafirma
quando diz que “a Igreja, em sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não
admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem
ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem
objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e
realizada na Eucaristia. Há, além disso, outro peculiar motivo pastoral: se se
admitissem estas pessoas à sagrada comunhão, os fiéis seriam induzidos em erro
e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do
matrimônio”. Quem tem “experiência pastoral”, está no meio do povo e vivendo em
comunidade, sabe muito bem que a questão não é tão simples. A caridade também é
democrática, ou seja, é para todos. Como acolher de modo irresponsável a
alguns, sem levar em consideração os pecados pessoais de um ou dois, que também
geraram pecados sociais na vida de muitos outros? Acreditamos na misericórdia
infinita de Deus. A Igreja é bem ciente disto. Basta que leiamos a carta
Encíclica, Dives in Misericórdia, também de São João Paulo II, sobre a
misericórdia divina. Contudo, não podemos relativizar, por conveniência, a Sua
justiça, que, tanto quanto a misericórdia, é considerada como um Seu atributo,
e que é indissociável da Sua
misericórdia. Estas não são conseqüência de uma graça barata, nem
inconseqüente. Quando fazemos menção à misericórdia, mesmo que
inconscientemente, ou por laxismo moral, e tratamos como se ela fosse
condicionada aos nossos pecados, de algum modo a reduzimos a partir dos nossos
paradigmas humanos e epistemológicos. O Antigo Testamento reconheceu a
incomensurável misericórdia do Senhor e o fez a partir da finitude do pecado
que estará presente até determinadas gerações, mas este não de modo infinito,
como a certeza da misericordiosa e justa ação de Deus presente na vida do Seu
povo (Cf. Ex 3,7-16; Ex 33-34; Dt 32,9-14; Nm 14,18; Jn 4,2; Jr 32,17-18; Sl
86,15; 103,8; 145,8). Esta prerrogativa não é só do Novo Testamento, mesmo
sabendo que neste último ela toma sua forma mais radical na pessoa de Jesus Cristo,
através da sua Páscoa, que nos redime e salva. Por isso, é lembrado e
caritativamente dito, seguindo o magistério eclesiástico, aos casais de segunda
união que estes, mesmo não comungando, não são indignos da misericórdia de
Deus. Não estão fora da Igreja e são dignos da Sua compaixão. O que temos que
considerar é o discernimento e a atenção que têm que contemplar a todas as famílias.
O próximo Sínodo nos trará orientações pastorais e, estas, motivadas pela
postura acolhedora do Papa Francisco, que como já foi provado, não é diferente
dos ensinamentos precedentes. A Igreja não tem a intenção de excluir ninguém.
Não é honesto, nem cristão fazer tais insinuações. Mas, mesmo sendo Mãe, não
pode deixar de ser Mestra. Já se percebe que o Papa Francisco dará a abertura
para que as discussões sejam as mais profícuas e fecundas possíveis. Ele deixa
claro que a missão da Igreja pertence ao Espírito Santo, mas, outrossim, que é
Papa da Igreja Católica e Apostólica.
Por fim, o Ano Santo da Misericórdia
será uma referência teológica e eclesial fundamental para o que será a Igreja
nos próximos tempos. Não podemos esquecer que a misericórdia do Senhor não
dispensa a nossa conversão. Todos nós somos chamados a vivê-la e testemunhá-la.
Deus não nos salva sem a nossa liberdade. Ele não a violenta. Rezemos para que o
Sínodo seja mais uma oportunidade concedida pelo Senhor, neste tempo de graça,
para que todas as famílias sejam agraciadas e tocadas pela bondade, a
misericórdia e a compaixão de Deus, que é Pai. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco de São José de Mipibu-RN e Vigário Episcopal Sul da Arquidiocese de Natal.

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